
Há datas que nos convidam a celebrar o que construímos. Outras desafiam-nos a pensar no que ainda falta fazer. O Dia da Biblioteca Escolar, que em Portugal se assinala a 26 de outubro, é uma oportunidade para ambas as coisas.
Em 2026, esta celebração assume um significado especial: a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) completa 30 anos de existência, num momento em que volta a dar passos importantes no alargamento do acesso das crianças portuguesas aos livros, à leitura e às oportunidades de aprendizagem.
Celebramos, por isso, as bibliotecas, os leitores e todos aqueles que, diariamente, fazem destes espaços lugares vivos de leitura, descoberta, aprendizagem e encontro. Mas celebramos, sobretudo, uma convicção que tem orientado o trabalho da Rede ao longo de três décadas: uma escola com uma biblioteca ativa é uma escola com mais oportunidades para todos. (…)
Porque precisamos tanto de bibliotecas escolares?
Os resultados mais recentes dos estudos internacionais recordam-nos que não podemos dar por adquiridas as competências de leitura. O PISA 2025 voltou a evidenciar dificuldades entre os alunos portugueses, com um novo recuo no desempenho em leitura relativamente a 2022, acompanhando uma tendência de declínio observada em muitos países da OCDE. Estes resultados reforçam a necessidade de uma intervenção consistente e continuada, desde os primeiros anos, que promova o desenvolvimento da competência leitora e a construção de hábitos de leitura.
Efetivamente, aprender a ler é uma conquista decisiva, mas não chega. É necessário continuar a ler, ler cada vez melhor, compreender textos progressivamente mais exigentes, desenvolver vocabulário, interpretar, estabelecer relações, questionar e construir conhecimento.
E é igualmente necessário descobrir que ler pode ser uma escolha, uma fonte de prazer, uma forma de conhecer o mundo e de nos conhecermos melhor.
As bibliotecas escolares têm um papel fundamental neste processo. Proporcionam o contacto regular com livros diversificados, permitem que cada criança encontre leituras adequadas aos seus interesses e necessidades e criam oportunidades para ler autonomamente, ouvir ler, conversar sobre livros e partilhar descobertas.
Apoiam os docentes, articulam-se com o currículo e contribuem para que a leitura não fique confinada a uma disciplina, a um projeto ou a um momento ocasional.
Ajudam também a construir um ambiente leitor em toda a escola, no qual os livros estão presentes, a leitura é valorizada e os adultos assumem um papel ativo enquanto leitores e mediadores. E permitem prolongar essa experiência para além dos muros da escola, através do empréstimo domiciliário, da leitura partilhada em família e da aproximação entre diferentes gerações de leitores.
Porque não basta ensinar a ler. É preciso criar condições para que todas as crianças queiram continuar a ler.
Num mundo em mudança, bibliotecas ainda mais necessárias.
Vivemos num tempo marcado pela abundância de informação, pela aceleração tecnológica e pela presença crescente da inteligência artificial nas nossas vidas. Nunca foi tão fácil aceder a conteúdos. Mas aceder não significa necessariamente compreender. Encontrar uma resposta não é o mesmo que saber avaliá-la. E dispor de ferramentas tecnológicas cada vez mais sofisticadas torna cada vez mais relevante a capacidade de pensar, questionar, interpretar e decidir.
Neste contexto, as bibliotecas escolares são particularmente importantes. São espaços onde os alunos podem aprender a distinguir informação de opinião, avaliar a credibilidade das fontes, reconhecer diferentes perspetivas e utilizar os media e as tecnologias de forma crítica, responsável e criativa.
São também lugares de encontro com a literatura, com a ciência, com a arte e com ideias que desafiam aquilo que julgamos saber. Lugares onde se aprende a escutar, a argumentar, a respeitar a diferença e a construir pensamento próprio.
Num tempo em que muitas respostas parecem estar à distância de um clique, precisamos de espaços que continuem a valorizar as perguntas, a curiosidade, a reflexão, bem como a criatividade e a imaginação.
A biblioteca escolar é um desses espaços.
Mais bibliotecas, responsabilidade acrescida.
Em 2026, o Ministério da Educação, Ciência e Inovação lançou uma medida extraordinária de expansão da Rede no 1.º ciclo do ensino básico, dando resposta a uma necessidade que subsistia em numerosas escolas portuguesas. (…)
A expansão da Rede de Bibliotecas Escolares constitui um motivo de satisfação e de esperança. Mas o verdadeiro alcance deste investimento será medido pela forma como as novas bibliotecas passam a fazer parte da vida das escolas e das crianças.
Uma biblioteca não se constrói apenas com estantes, mobiliário e livros. Precisa de profissionais que assegurem o seu funcionamento, de coleções atualizadas, de serviços acessíveis, de articulação com os docentes e de uma presença efetiva nas práticas educativas. Precisa, acima de tudo, de ser utilizada.
O crescimento da Rede traz, por isso, uma responsabilidade acrescida: garantir que cada nova biblioteca se afirma como um recurso educativo essencial, integrado no trabalho do agrupamento e disponível para todos os alunos.
Isso implica assegurar um serviço de biblioteca que chegue regularmente a todas as escolas, incluindo as de menor dimensão, e que proporcione experiências de leitura e aprendizagem continuadas.
Uma biblioteca que abre as portas, mas que não tem uma presença regular na vida escolar, dificilmente concretizará todo o seu potencial. Uma biblioteca que faz parte do quotidiano das crianças, que aproxima os livros dos leitores, que apoia as aprendizagens e que envolve os professores e as famílias pode transformar a experiência escolar.
O desafio não é apenas ter mais bibliotecas. É fazer com que cada vez mais crianças tenham verdadeiramente uma biblioteca.
Celebrar o caminho percorrido. Continuar a fazer acontecer.
Neste Dia da Biblioteca Escolar, celebramos as bibliotecas que já fazem parte da vida de várias gerações de alunos e aquelas que estão agora a nascer, levando os livros e a leitura a escolas onde a sua presença era ainda insuficiente.
Celebramos as comunidades educativas que reconhecem a leitura como uma prioridade e fazem da biblioteca um espaço partilhado, integrado nas práticas pedagógicas e aberto à participação de todos.
Celebramos três décadas de trabalho, de investimento, de persistência e de cooperação, que fizeram da Rede de Bibliotecas Escolares uma realidade incontornável do sistema educativo português.
Mas celebrar o que foi construído é também reconhecer aquilo que ainda precisa de ser feito. O desafio dos próximos anos será continuar a alargar o acesso às bibliotecas, assegurar a qualidade e a regularidade dos seus serviços, fortalecer a sua integração nas práticas educativas e aprofundar o seu contributo para a leitura, as aprendizagens e o desenvolvimento das literacias.
Trinta anos depois, a missão que esteve na origem da Rede de Bibliotecas Escolares mantém toda a sua atualidade.
E o compromisso renova-se: continuar a trabalhar para que todas as crianças e jovens possam encontrar na biblioteca escolar um lugar para ler, aprender, descobrir e crescer. Porque cada nova biblioteca é uma oportunidade.
Mais bibliotecas. Mais leitores. Mais oportunidades para todos.
Referências
- Ministérios da Educação e da Cultura (1996). Despacho Conjunto n.º 184/ME/MC/96, de 6 de agosto. Diário da República, II Série, n.º 198, de 27 de agosto de 1996, pp. 11995–11996. https://www.rbe.mec.pt/np4/file/322/despacho_conjunto_184_ME_MC_96.pdf
- Veiga, I., Barroso, C., Calixto, J. A., Calçada, T., & Gaspar, T. (1997). Lançar a Rede de Bibliotecas Escolares: relatório síntese. Lisboa: Ministério da Educação. (Coleção Educação para o Futuro). ISBN 972-729-018-3. https://www.rbe.mec.pt/np4/lancarRede.html
- 📸 Imagem da capa do relatório Lançar a Rede…
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