Carta a uma menina que queria ser poeta
não procures imitar ninguém
nenhum autor
cujas obras tenhas conhecido
ou mesmo
qualquer cantiga popular
cujo autor desconheças. Não.
Não faças isso. Quando quiseres fazer um poema
a única coisa de que precisas
é sentir essa vontade e depois
– só depois –
decidires-te. Um poema pode ter muitas formas:
pode ser feito com palavras
muito bonitas
ou muito engraçadas
muito bem escritas e alinhadas
numa linda folha de papel
mas também pode ser rabiscado
ou com figuras.Pode ser a preto e branco
ou a cores
pode ser a tinta
a lápis
a esferográfica
a ponta de feltro
sobre papel
plástico
lousa
pedras
sei lá
até pode ser de areia
de pano
de folhas
pode ser só feito com a voz
falado
cantado
murmurado
dito
só dentro da cabeça da gente
ou então representado no palco
com gestos
caretas várias
aos saltos
cambalhotas
ou imovelmente.Um poema pode ser tudo isso
pode ter essas formas todas
porque a poesia está
onde a soubermos encontrar
ou colocar.A poesia é uma coisa que está
ou tem de estar
dentro de nós
e que nós
por isso
podemos projetar em tudo.
A poesia não é só uma arte
é um princípio
quer dizer
uma lei da nossa sensibilidade.
O que a poesia exige de nós
é só uma coisa:
liberdade
porque a liberdade
é a lei mais importante da criação
a lei mais importante da felicidade.
A poesia é um ato livre
tem de ser um ato livre.
Mas também é um jogo
um conjunto de regras
que a nós próprios impomos
para com elas praticarmos
um ato que nos torna felizes.
Todas as formas de arte
nascem dessa liberdade
dessa iniciativa
que nos leva a criar
coisas
casas
livros
palavras.
A poesia é para sermos felizes
e comunicarmos
essa felicidade.
Quando a poesia
trata de assuntos tristes
está a queixar-se
da falta de alegria
dos momentos infelizes do mundo
que não deixam criar
realidades belas
novas
generosas.
No entanto
quando um poeta cria
um poema
um objeto
uma coisa qualquer
nesse momento exato
não pensa em nada disso:
vive simplesmente um impulso
a que ele se entrega
e depois entrega ao mundo.
Por isso
se tudo o que te apetece
é simplesmente
deitares-te no chão
e olhar o céu
podes crer
também isso é poesia
e basta.
Ana Hatherly
in “Itinerários”
Ana Hatherly nasceu a 8 de maio de 1929, no Porto. Licenciou-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e doutorou-se em Estudos Hispânicos pela Universidade da Califórnia, em Berkeley. A sua vasta obra inclui poesia, ficção, ensaio, tradução, performance, cinema e artes plásticas. Uma poeta de vanguarda, foi membro destacado e teorizadora do grupo da Poesia Experimental Portuguesa. Destacam-se as suas obras Eros Frenético (1968), Rilkeana (1999), ou o conjunto de textos reunidos em Tisanas, um trabalho que a acompanhou até ao final da vida. Faleceu a 5 de agosto de 2015.
in https://www.wook.pt/livro/itinerarios-ana-hatherly/117233?srsltid=AfmBOorcBYA85p5xh9R5USOFe_2Z-H2FUSo2f5bNK4NaIdoRXaIQZkm6
Ana Hatherly inicia em meados da década de 60 um percurso singular pela interioridade da escrita para concluir que esta «nunca foi senão representação: imagem». A artista empreende uma arqueologia da língua que a levará às origens dos signos e à herança da caligrafia oriental arcaica, que copia, disciplinadamente, até a mão se tornar «inteligente». O instrumento já não é a caneta, a mão, mas todo o corpo que se move e se inscreve na indizibilidade da escrita-imagem.

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