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Severim de Faria terá nascido em 1584. Tendo sido educado e vivido sob a monarquia filipina (1580-1640), foi notável figura da Igreja, insigne erudito, tendo deixado inúmeros textos de carácter religioso e laico.
Com uma ascendência ilustre, foi junto de seu tio materno Baltasar de Faria Severim, cónego e chantre na Sé de Évora, que recebeu educação e se formou. Frequentou a Universidade Jesuítica de Évora, onde obteve o mestrado em Artes e o doutoramento em Teologia (1606). Por renúncia de seu tio, é nomeado cónego da Sé de Évora (1608) e, mais tarde, toma posse do Chantrado (1609). Durante a sua vida, prossegue os estudos e investigação em Teologia, História, Política, Geografia e Genealogia. Evidencia gosto particular pela Arqueologia, Numismática e Bibliofilia.
Reúne livros e documentos manuscritos, entre os quais o manuscrito original da Crónica de D. Afonso Henriques, de André de Resende (MACHADO 1752 : 369), obras do Infante D. Pedro, filho de D. João I, obras em japonês do dominicano espanhol Frei Luís de Granada, papiros do Egipto e livros chineses , certamente dos primeiros textos chineses a chegar à Europa. A livraria, assim constituída, torna-se famosa não pela quantidade mas pela qualidade. Após a sua morte, perdeu-se o rasto às antiguidades enquanto a biblioteca foi incorporada na biblioteca do Conde do Vimieiro a quem o ligavam laços de família, biblioteca que foi uma das mais importantes do séc. XVII e seria parcialmente consumida com o incêndio subsequente ao Terramoto de 1755.

Espírito aberto e interrogador, consultou arquivos, cartórios e documentos, manteve contacto com eruditos, missionários e viajantes, mantendo-se informado e atualizado, sem sair de Évora. A correspondência, por exemplo, que trocou com o seu irmão Frei Cristóvão de Lisboa, franciscano e missionário no Maranhão, cuja obra manuscrita Historia dos animaes e arvores do Maranhão, escrita entre 1624 e 1627, constitui a primeira descrição da fauna e flora brasilianas, regista esse contacto indireto com o mundo. As cartas trazem-lhe as novidades de uma natureza desconhecida mas também de outros povos, usos e costumes e como os Portugueses a eles se adaptavam.

Embora Severim de Faria não fosse dado a viajar, em Sobre a Peregrinação reconhece algumas vantagens que descreve de forma concisa: ” só por razão de alcançar as ciências, e artes necessárias ao comum, e particular, se deve sair da pátria ” acrescentando como é inútil ir para longe quando ao pé da porta se acha o que se procura, em concreto as universidades: ”  Foram poucas as viagens que Severim de Faria concretizou: em 1604 ao grande Santuário de Guadalupe (Espanha), em 1609 a Miranda do Douro e em 1625 a Maçãs de Dona Maria (Tomar) das quais resultaram relatos muito vivos e informativos para o conhecimento da realidade portuguesa, verdadeiros diários de viagem.

 Severim de Faria é um último representante de um certo espírito renascentista enquanto já denota características que marcarão os anos de setecentos: a curiosidade comprovada pelos factos, a partilha do conhecimento com os outros, a capacidade de ouvir e contrapor. Um percurso que se fez sob a égide dos Filipes, domínio com o qual aparenta concordar, a fazer fé na proposta que adiantou para a reorganização do Império, juízo que, de imediato, se pode questionar, tendo presente a forma insofismável como apoiou a subida ao poder de D. João IV, em 1640.

Bibliografia:
FARIA, Manuel Severim de, Discursos Vários Políticos. Introdução, atualização e notas de Maria Leonor Soares Albergaria Vieira. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1999. LV, 205 p. FARIA, Manuel Severim de, Notícias de Portugal. Introdução, atualização e notas de Francisco António Lourenço Vaz. Lisboa : Edições Colibri, 2003. XXVIII, 316, [1] p. MACHADO, Diogo Barbosa, Bibliotheca Lusitana Histórica, Critica, e Cronológica. Lisboa : Na Officina de Ignacio Rodrigues, 1741-1759. 4 v. (v. 3, 1752, p. 368-374). SERRÃO, Joaquim Veríssimo, Viagens em Portugal de Manuel Severim de Faria: 1604-1609-1625. Lisboa: Academia Portuguesa de História, 1974. 155 p., [3] mapas desd. (Subsídios para a História Portuguesa; 12). SILVA, Joaquim Palminha, Manuel Severim de Faria, o mais douto português do seu tempo. Ensaio biográfico. Évora: A Defesa, 2003. 61, [2] p. SOUSA, Luís Filipe Marques de, “Frei Cristóvão de Lisboa e a sua correspondência com Manuel Severim de Faria, seu irmão”. In Atas. Congresso de História no IV Centenário do Seminário de Évora, 1994. Évora: Instituto Superior de Teologia, 1994. 2 v. (v. 2, p. 127-141).

VERISSIMO SERRAO, JOAQUIM (1974) VIAGENS EM PORTUGAL DE MANUEL SEVERIM DE FARIA 1604-1609-1625. LISBOA: ACADEMIA PORTUGUESA DA HISTÓRIA. DE 25X20 CM. COM 155 PÁGS., [3] FLS. DESD. B.

Publicação de três valiosos relatos de viagens por Portugal de Severim de Faria acompanhados de comentários históricos.

“No período final do Renascimento, quem se deslocava no interior de Portugal não sentia a necessidade de gravar as impressões colhidas, como se a viagem fosse apenas um atrativo para os olhos, mas ainda não se impusesse como enriquecimento para o espírito. Ora, uma atitude diferente é tomada por Severim de Faria, o que nos permitiu elevar a sua originalidade e considerá-lo o primeiro cronista de viagens que houve em Portugal. (…) O viajante de Évora não esconde, nas suas páginas, o amor que consagrava à Terra Portuguesa. Em pleno domínio dos Filipes, as suas andanças por terras do Alentejo a Trás-os-Montes davam-lhe a consciência da unidade do Reino, de uma Pátria que não fora retalhada no seu quadro geográfico e nas suas formas de vida. (…) Sulcando estradas, visitando povoações e admirando paisagens, Severim de Faria sente o apego do Homem português pela Terra que lhe pertence. Tais as razões que fazem dos relatos de viagem do Chantre de Évora uma fonte de real importância para se conhecer o Portugal coevo.”

In https://eve.fcsh.unl.pt/pt/pessoas/manuel-severim-de-faria-lisboa-1583-evora-1655, consultado em 1/3/2026

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