Comemora-se, no presente ano, o centenário do nascimento de José Cardoso Pires, um dos maiores escritores da literatura portuguesa do século XX. A Biblioteca da Escola Severim de Faria fez questão de assinalar esta efeméride através de uma mostra bibliográfica do autor onde se destacam as suas obras mais emblemáticas.
O escritor nasceu no dia 2 de outubro de 1925, na Beira Baixa, por vontade expressa dos pais, que já residiam em Lisboa. No entanto, considerou-se sempre um “citadino, lisboeta, que viajava para conhecer pessoas e “perder países”, conforme nos revela no seu autorretrato, publicado a 6 de abril de 1974, na revista “Sempre fixe”.

TESTEMUNHO DA ESCRITORA LÍDIA JORGE : A GRANDEZA DE JOSÉ CARDOSO PIRES
“José Cardoso Pires é um dos maiores escritores do mundo. Superlativo? Não importa. Pode ler-se à vontade de uma outra forma. José Cardoso Pires é um dos maiores escritores do meu mundo. Ele sabia que eu pensava assim e algumas vezes lho escrevi. Aliás, a palavra mundo para ele era importante, porque a escrita do José era feita para um horizonte vasto. Fosse o que fosse que escrevesse, sempre se dirigia para um destinatário amplo. Tinha necessidade de não estar aqui, a sua escrita necessitava de não se confinar nem a esta língua nem a este lugar, desejava ser daqui e não ser daqui, ser de outra parte, longínqua e aberta, ser livre. Talvez o momento em que o vi mais feliz tivesse sido, certa vez, a caminho de Nova Iorque. Estávamos no Canadá e, de repente, chamaram-no para ir até ao outro lado para visitar amigos e fazer uma ronda por universidades. Sim, iria imediatamente. A sua ideia era de que em Nova Iorque batia o coração do mundo criativo. Nessa cidade, que em tempos lhe recusara a entrada, desaguavam os rios mais imaginativos do seu futuro. Tinha de partir rápido. Era como se houvesse nele um Arthur Miller ou um Norman Mailer com quem dialogasse no mundo do seu afeto e da sua dimensão literária. (…) Sempre o vi assim. Desde o primeiro encontro que tive com ele, na Gulbenkian, no início dos anos oitenta, em que me falou dessas raízes mentais longínquas, essas raízes urbanas onde ele, por uma segunda vez, havia nascido para sempre. Percebi isso depois, fui percebendo, que a sua tragédia era essa, a de existir num país pequeno, numa sociedade pequena, num bar que ficava logo ali, a ausência duma geografia vasta e duma guerra real como a que o Hemingway teve. Tragédia que afinal se transformou na matéria viva dos seus melhores livros – O Anjo Ancorado, O Hóspede de Job, O Delfim. O mundo português, autopunitivo e mesquinho, enrolado sobre si mesmo, em Balada da Praia dos Cães. O mundo lusitano que ao mesmo tempo o repelia e o atraía, oferecendo-lhe a sua saga. (…) Corajoso, risonho, irreverente. Uma asa de rebelde sempre levantada, estivesse onde estivesse. Também a prosa dele, na sua síntese seca e abrupta, nascia assim. Uma rebeldia com pudor. Parca por receio de deixar franjas à vista. O medo de que alguma coisa de enfeite sobejasse e no sobejo houvesse uma revelação traidora. O medo de um erro, um desperdício. O que sempre de melhor se amará na sua escrita será isso – um esforço para ser limpo, sóbrio, transparente como um vidro, cortante como o gume que nele se esconde.”
In JL, 4 de novembro, 1998, consultado em 2 de dezembro de 2025

© João Ribeiro (Visão, 29 Outubro 1998)
https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/EFEMERIDES/josecardosopires/JoseCardosoPires_Biografia.htm
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