
A maioria dos países celebra a independência, uma revolução ou a fundação do Estado como o dia nacional, mas em Portugal é diferente: o Dia de Portugal é assinalado na data da morte de um poeta. Mas como é que Luís de Camões acabou por dar nome ao dia nacional? E porque é que o feriado passou a incluir também as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo?
A 10 de junho celebra-se o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Mas, curiosamente, nem sequer sabemos ao certo se Luís de Camões morreu nesse dia.
É geralmente apontado o dia 10 de junho de 1580, mas alguns historiadores acreditam que poderá ter morrido em 1579. Também existem dúvidas sobre o local onde foi sepultado e sobre vários aspetos da sua vida, incluindo se chegou ou não a estudar na Universidade de Coimbra.
Apesar das incertezas biográficas, a importância da sua obra nunca esteve em causa. Foi essa importância que, séculos depois, transformou Camões num símbolo de Portugal.
Como é que um poeta se tornou símbolo do país?
A resposta leva-nos ao século XIX.
Em 1880 assinalavam-se os 300 anos da morte de Camões. O país vivia uma fase de forte contestação à monarquia e o movimento republicano procurava novos símbolos nacionais que não estivessem associados nem à religião nem à Coroa.
A ideia era simples: Camões representava uma figura consensual, ligada à língua portuguesa, à cultura e à época dos Descobrimentos. Era um símbolo suficientemente forte para unir pessoas com ideias políticas muito diferentes.
A aposta resultou. As comemorações tiveram tanto impacto que Camões passou a ser visto como uma espécie de rosto simbólico de Portugal.
Quando nasceu o feriado?
O 10 de Junho não se tornou imediatamente feriado nacional e até foi mudando de designação ao longo dos anos.
Primeiro foi apenas um feriado municipal em Lisboa, dedicado a Camões, em 1911, já durante a Primeira República.
As celebrações incluíam habitualmente homenagens junto da estátua de Camões, inaugurada no Chiado, em 1867.
Mais tarde, durante o Estado Novo, adquiriu oficialmente o estatuto de feriado nacional, em 1929, e passou a chamar-se “Dia de Camões, de Portugal e da Raça”, em 1952.
Depois da Revolução de 25 de Abril, a referência à “raça” desapareceu.
- Em 1977, o então Presidente da República, Ramalho Eanes, decidiu que o feriado devia representar não apenas quem vivia em Portugal, mas também os milhões de portugueses e descendentes espalhados pelo mundo.
Por isso, a partir de 1978, a designação passou a ser Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, nome que mantém até hoje.
O prémio que une a língua portuguesa
Em 1988, Portugal e o Brasil criaram conjuntamente o Prémio Camões, considerado a mais importante distinção literária da língua portuguesa.
O galardão reconhece autores de todo o espaço lusófono e já distinguiu nomes como Miguel Torga, José Saramago, Sophia de Mello Breyner Andresen, Pepetela, Mia Couto, Paulina Chiziane ou Chico Buarque.
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