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Na passada quinta-feira, dia 7 de Março, inaugurámos o Ciclo de Cinema 50 anos de Abril, com a exibição do filme Cerromaior, realizado em 1980, por Luís Filipe Rocha e baseado na obra, com o mesmo nome, de Manuel da Fonseca.

O nosso convidado, Dr. José Alberto Ferreira, começou por contextualizar a obra de Manuel da Fonseca e do cineasta Luís Filipe Rocha. Após o visionamento do filme, teceu alguns comentários sobre alguns aspetos fulcrais  da narrativa e evidenciou várias opções técnicas do realizador, fomentado uma conversa informal e respondendo a algumas questões colocadas.

Esta obra retrata com extremo realismo a sociedade rural dos anos trinta, em pleno Alentejo. Entre outros, destacam-se os temas da pobreza, da precariedade (a jorna), a prepotência dos senhores latifundiários, a lentidão do tempo, a monotonia dos dias, a solidão das mulheres burguesas e a instrumentalização da mulher pobre, à mercê dos caprichos e abusos dos patrões, enfim, a profunda injustiça e desigualdade  sociais.

Estiveram presentes as turmas CT1, LH1, LH2 do 12ºano e a turma do 1º ano do Curso de Logística, acompanhadas pelos respetivos professores.

Manuel da Fonseca foi um dos escritores cimeiros do neorrealismo* português, entre outros, como Afonso Ribeiro, Alves Redol e  Soeiro Pereira Gomes.

A obra Cerromaior foi submetida à Direção dos Serviços de Censura.** Na leitura do romance, o censor concordou com a descrição da desigualdade social portuguesa, mas no seu parecer colocou reservas:

“Não julgo com possibilidades de ser autorizado. Sem defender ou atacar qualquer tese ou preceito social, apresenta ao leitor factos concretos que revelam profundas deficiências da estrutura social entre nós. A vida dura e miserável do trabalhador rural alentejano, a carência ao mesmo de assistência social, a indiferença do abastado pelo humilde que trabalha em seu proveito.”

 

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*S.M. (de Neo + Realismo) – Movimento artístico, literário e filosófico que floresceu no pós-guerra, propondo uma revalorização do realismo tradicional e que, inspirado no materialismo dialético, procurava representar e dar voz aos anseios das camadas proletárias. (Dicionário da Academia de Ciências de Lisboa, Lisboa, Editorial Verbo, 2001, vol. 2)

O neorrealismo literário pode definir-se como um movimento que se desenrolou aproximadamente entre finais dos anos 30 e finais dos anos 50 do século XX, num contexto particular, correspondendo a parte do tempo histórico-político do salazarismo e sob o signo ideológico e cultural do marxismo. (Biblos, Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, Lisboa, Editorial Verbo, 1999)
 
** DIREÇÃO DOS SERVIÇOS DE CENSURA – O exercício do direito de liberdade de imprensa foi objeto de uma Lei do Ministério da Justiça, publicada em 28 de Outubro de 1910. O referido diploma advogava a livre circulação das publicações, sem qualquer caução, censura ou autorização prévia, embora determinasse os limites dessa mesma liberdade de imprensa.A partir do 28 de Maio de 1926 a imprensa começou a sentir o efeito da censura prévia, mesmo antes da legalização desta, em 1933. Visava todas as publicações periódicas, folhas volantes, folhetos e cartazes que tratassem de assuntos políticos e sociais. O exercício da censura estava a cargo das Comissões de Censura, de nomeação governamental, subordinadas ao Gabinete do Ministro do Interior, por intermédio da Comissão de Censura de Lisboa. Esta Comissão teve como sucessoras, ainda em 1933, a Direção Geral dos Serviços de Censura, e em 1935, a Direção dos Serviços de Censura.Com o alargamento das suas competências em 1936, a Direção dos Serviços de Censura passou a intervir na fundação, circulação, distribuição e venda de publicações, nomeadamente estrangeiras, que contivessem matérias cuja divulgação não fosse permitida em publicações portuguesas.(…)

Em 1940, foi criado, na Presidência do Conselho de Ministros, um Gabinete de Coordenação dos Serviços de Propaganda e Informação, presidido pelo próprio Presidente do Conselho, que integrava os responsáveis do Secretariado da Propaganda Nacional, da Direção dos Serviços de Censura e da Comissão Administrativa da Emissora Nacional de Radiodifusão. Competia ao Gabinete de Coordenação dos Serviços de Propaganda e Informação coordenar as atividades de propaganda e informação dos diversos serviços públicos e assegurar a execução das directrizes governamentais relativas a essas matérias.

A Direção dos Serviços de Censura foi mantida sob a tutela do Ministério do Interior até 1944, data a partir da qual o Secretariado Nacional de Informação passou a concentrar não só as funções do órgão que exercia a censura, mas também todas as competências do Secretariado de Propaganda Nacional e dos serviços de turismo.

Em 1972, a Direção dos Serviços de Censura foi transformada numa Direção Geral da Informação e a “censura” recebeu a designação de “exame prévio”.

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